Infecções recorrentes, graves ou difíceis de tratar podem ser um sinal de alerta. Entenda o que é imunodeficiência, quando a imunidade baixa merece investigação e quais exames podem ajudar no diagnóstico.
Ter uma gripe, resfriado ou infecção de vez em quando faz parte da vida, especialmente durante a infância. Entretanto, quando as infecções são muito frequentes, prolongadas, graves ou difíceis de tratar, pode ser necessário investigar se existe alguma alteração no funcionamento do sistema imunológico.
É nesse contexto que entra a imunodeficiência, condição em que uma ou mais partes do sistema de defesa do organismo apresentam funcionamento inadequado.
Nem toda pessoa que fica doente com frequência tem imunodeficiência. Crianças pequenas, por exemplo, podem apresentar diversas infecções respiratórias ao longo do ano devido à maior exposição a vírus na escola e em ambientes coletivos. Da mesma forma, fatores como alergias respiratórias, alterações anatômicas, sono inadequado e exposição à fumaça podem favorecer infecções ou sintomas recorrentes.
Por isso, mais importante do que contar quantas vezes uma pessoa ficou doente é observar como essas infecções acontecem, qual é a gravidade, quanto tempo duram e como respondem ao tratamento.

O que é imunodeficiência?
A imunodeficiência ocorre quando o sistema imunológico não consegue desempenhar adequadamente uma ou mais de suas funções de defesa.
As imunodeficiências podem ser classificadas, de maneira geral, em dois grandes grupos:
- imunodeficiências primárias ou inatas, relacionadas a alterações que podem ter origem genética;
- imunodeficiências secundárias ou adquiridas, provocadas por outras condições, medicamentos ou situações que comprometem a resposta imunológica.
As imunodeficiências primárias podem se manifestar na infância, mas algumas só são identificadas na adolescência ou na idade adulta.
Já as imunodeficiências secundárias podem surgir ao longo da vida.
Imunidade baixa significa imunodeficiência?
Não necessariamente.
A expressão “imunidade baixa” é bastante utilizada no dia a dia para descrever pessoas que adoecem com frequência, apresentam cansaço ou têm infecções recorrentes. Porém, do ponto de vista médico, esses sintomas isoladamente não confirmam uma imunodeficiência.
Uma pessoa pode apresentar infecções frequentes por diferentes motivos.
Entre eles estão:
- exposição intensa a vírus e bactérias;
- convivência em ambientes coletivos;
- alergias respiratórias não controladas;
- alterações estruturais das vias respiratórias;
- tabagismo ou exposição à fumaça;
- determinadas doenças crônicas;
- uso de alguns medicamentos;
- alimentação inadequada;
- privação de sono.
Por isso, dizer que alguém tem “imunidade baixa” não substitui uma avaliação médica.
Quando as infecções frequentes podem ser um sinal de alerta?
A frequência das infecções é apenas um dos aspectos avaliados pelo especialista.
Alguns sinais merecem atenção especial, principalmente quando aparecem de forma repetida ou associados entre si.
Entre eles estão:
- infecções recorrentes que exigem avaliação médica frequente;
- infecções particularmente graves;
- necessidade repetida de antibióticos;
- infecções que demoram muito para desaparecer;
- dificuldade para responder adequadamente aos tratamentos;
- pneumonias recorrentes;
- sinusites recorrentes ou de difícil controle;
- otites de repetição;
- infecções por microrganismos incomuns;
- necessidade de internações por infecções;
- infecções oportunistas;
- perda de peso sem explicação;
- dificuldade de crescimento ou ganho de peso em crianças;
- histórico familiar de imunodeficiência.
A presença de um desses sinais não significa automaticamente que exista uma imunodeficiência. Eles indicam que pode ser necessário investigar a situação com mais cuidado.
Quais infecções podem estar relacionadas à imunodeficiência?
As manifestações variam conforme a parte do sistema imunológico afetada.
Algumas pessoas apresentam principalmente infecções respiratórias recorrentes, enquanto outras podem ter infecções bacterianas, virais ou fúngicas de maior gravidade.
Infecções que merecem investigação quando são recorrentes ou apresentam evolução incomum incluem:
Pneumonias recorrentes
Ter episódios repetidos de pneumonia, especialmente quando ocorrem em diferentes momentos ou apresentam complicações, pode justificar uma investigação imunológica.
Sinusites e otites recorrentes
Infecções repetidas das vias respiratórias superiores podem ocorrer por diversas razões.
Rinite alérgica, alterações anatômicas e exposição ambiental são exemplos de causas comuns. Em determinados casos, porém, o médico pode investigar se existe alguma alteração da resposta imunológica.
Infecções por fungos
Infecções fúngicas persistentes, extensas ou recorrentes, principalmente quando apresentam características incomuns, podem ser um sinal de alerta.
Infecções incomuns ou muito graves
A ocorrência de infecções por determinados microrganismos que normalmente não provocariam doença em pessoas saudáveis pode indicar alteração da imunidade.
Crianças que ficam muito doentes têm imunodeficiência?
Essa é uma dúvida frequente entre os pais.
Crianças pequenas podem apresentar várias infecções respiratórias ao longo do ano, especialmente quando frequentam creches ou escolas.
O sistema imunológico está em constante contato com novos agentes infecciosos, e episódios de resfriado podem ocorrer com relativa frequência.
Portanto, uma criança que apresenta muitos resfriados não necessariamente tem imunodeficiência.
O que chama a atenção é o padrão das infecções.
É importante observar se existem pneumonias repetidas, infecções muito graves, necessidade frequente de internações, crescimento inadequado, infecções incomuns ou dificuldade importante de recuperação.
A avaliação deve sempre considerar a idade da criança, o ambiente em que vive, o histórico familiar e as características de cada episódio.
Quais são as causas da imunodeficiência?
As causas dependem do tipo de imunodeficiência.
Imunodeficiências primárias
As imunodeficiências primárias estão relacionadas a alterações do sistema imunológico que podem ter origem genética.
Existem centenas de condições diferentes, com manifestações e graus de gravidade variados.
Algumas afetam principalmente a produção ou função dos anticorpos. Outras envolvem células de defesa, proteínas do sistema complemento, mecanismos de defesa inata ou diferentes componentes da resposta imunológica.
Por isso, não existe um único tipo de imunodeficiência.
Imunodeficiências secundárias
As imunodeficiências secundárias são adquiridas ao longo da vida e podem estar relacionadas a diferentes condições.
Entre os fatores que podem comprometer a resposta imunológica estão:
- determinados medicamentos imunossupressores;
- alguns tratamentos contra o câncer;
- doenças hematológicas;
- algumas doenças crônicas;
- desnutrição;
- infecções específicas;
- outras condições que afetam o funcionamento do sistema imunológico.
A identificação da causa é essencial para definir o tratamento.
Como é feito o diagnóstico de imunodeficiência?
A investigação começa com uma consulta médica detalhada.
O especialista analisa o histórico de infecções e procura identificar padrões que possam sugerir alguma alteração imunológica.
São avaliados fatores como:
- idade de início das infecções;
- frequência dos episódios;
- tipo de microrganismo envolvido;
- gravidade das infecções;
- necessidade de internação;
- resposta aos antibióticos;
- ocorrência de complicações;
- histórico de vacinação;
- histórico familiar;
- doenças associadas;
- medicamentos utilizados.
Depois dessa avaliação, podem ser solicitados exames laboratoriais.
Quais exames podem investigar uma imunodeficiência?
Os exames dependem da suspeita clínica.
Entre as avaliações que podem fazer parte da investigação estão:
- hemograma;
- dosagem de imunoglobulinas;
- avaliação de subclasses de imunoglobulinas em situações específicas;
- avaliação de resposta a determinadas vacinas;
- contagem e análise de populações de células do sistema imunológico;
- avaliação do sistema complemento;
- outros exames direcionados conforme os achados clínicos.
Em determinadas situações, testes genéticos podem ser considerados.
É importante destacar que não existe um único exame capaz de diagnosticar todas as imunodeficiências.
A investigação precisa ser direcionada pela história clínica e pelos achados do exame físico e dos exames laboratoriais.
O que são imunoglobulinas?
As imunoglobulinas, também chamadas de anticorpos, são proteínas produzidas pelo sistema imunológico que ajudam o organismo a reconhecer e combater determinados agentes infecciosos.
A avaliação de imunoglobulinas pode ser útil na investigação de algumas imunodeficiências, principalmente quando existem infecções bacterianas recorrentes.
Entretanto, uma alteração na dosagem de uma imunoglobulina não deve ser interpretada isoladamente.
A idade do paciente, histórico clínico e outros resultados precisam ser considerados.
Imunodeficiência pode aparecer na vida adulta?
Sim.
Embora algumas imunodeficiências sejam identificadas na infância, outras podem ser diagnosticadas somente na adolescência ou na idade adulta.
Em alguns casos, a pessoa apresenta infecções recorrentes durante anos e só procura investigação quando os episódios se tornam mais frequentes, graves ou difíceis de controlar.
Também existem imunodeficiências que podem se manifestar depois de um período de vida sem sintomas importantes.
Por isso, o diagnóstico não deve ser limitado às crianças.
Adultos com histórico de infecções recorrentes e características fora do padrão também podem se beneficiar de uma avaliação especializada.
Qual é a diferença entre imunodeficiência e doença autoimune?
Embora ambas estejam relacionadas ao sistema imunológico, são situações diferentes.
Na imunodeficiência, determinadas funções de defesa podem estar reduzidas ou comprometidas, aumentando a suscetibilidade a algumas infecções.
Nas doenças autoimunes, o sistema imunológico passa a reagir contra componentes do próprio organismo.
É possível, inclusive, que determinadas pessoas com imunodeficiências apresentam maior frequência de manifestações autoimunes.
Por isso, a avaliação imunológica pode ser importante em situações clínicas específicas que vão além das infecções recorrentes.
Imunodeficiência tem tratamento?
O tratamento depende do tipo e da causa da imunodeficiência.
Alguns pacientes precisam de reposição de imunoglobulinas. Outros podem necessitar de medidas específicas para prevenção e tratamento de infecções.
Em determinadas situações, o tratamento da doença responsável pela imunodeficiência secundária é fundamental para recuperar ou melhorar a função imunológica.
Dependendo do diagnóstico, também podem ser necessárias:
- medidas preventivas contra determinadas infecções;
- vacinação individualizada;
- acompanhamento médico regular;
- tratamento precoce das infecções;
- reposição de nutrientes quando houver deficiência;
- terapias específicas para o defeito imunológico identificado.
O tratamento deve ser individualizado.
A vacinação é importante para quem tem imunodeficiência?
A vacinação é uma das principais ferramentas de prevenção de doenças infecciosas, mas pessoas com imunodeficiências podem precisar de orientações específicas.
Algumas vacinas podem ser indicadas normalmente, enquanto determinadas vacinas vivas podem exigir avaliação individual dependendo do tipo e da gravidade da imunodeficiência.
Por isso, pacientes com suspeita ou diagnóstico de imunodeficiência devem conversar com o médico antes de receber determinadas vacinas ou alterar o calendário de vacinação.
Como reduzir o risco de infecções?
Mesmo quando não existe imunodeficiência, algumas medidas ajudam a reduzir o risco de infecções.
Entre elas estão:
- manter a vacinação em dia;
- lavar as mãos adequadamente;
- manter os ambientes ventilados;
- evitar exposição à fumaça de cigarro;
- manter alimentação equilibrada;
- praticar atividade física regularmente;
- priorizar sono adequado;
- controlar doenças crônicas;
- seguir corretamente os tratamentos prescritos.
Esses cuidados não substituem a avaliação médica quando existem sinais de alerta, mas contribuem para a saúde de forma geral.
Quando procurar um imunologista?
A avaliação com um alergista e imunologista pode ser considerada quando existe um padrão de infecções que foge do esperado ou quando outros sinais sugerem alteração da resposta imunológica.
É especialmente importante procurar avaliação quando as infecções:
- são muito graves;
- ocorrem repetidamente;
- exigem internações;
- não respondem como esperado ao tratamento;
- são provocadas por microrganismos incomuns;
- estão associadas a perda de peso ou dificuldade de crescimento;
- apresentam complicações frequentes;
- aparecem junto a histórico familiar sugestivo.
O objetivo da consulta não é apenas procurar uma doença, mas entender o padrão clínico e determinar se existe realmente necessidade de investigação.
Perguntas frequentes sobre imunodeficiência
1. Infecções frequentes significam imunodeficiência?
Não necessariamente. Infecções recorrentes podem ter diversas causas. O padrão, a gravidade, a duração e a resposta ao tratamento são mais importantes do que simplesmente contar o número de episódios.
2. O que é imunodeficiência?
É uma condição em que uma ou mais funções do sistema imunológico estão comprometidas, podendo aumentar a suscetibilidade a determinadas infecções.
3. O que significa ter imunidade baixa?
“Imunidade baixa” é uma expressão popular e não corresponde, por si só, a um diagnóstico médico. É necessário investigar a causa de infecções recorrentes ou outros sintomas antes de concluir que existe uma alteração imunológica.
4. Criança que vive gripada pode ter imunodeficiência?
Nem sempre. Crianças pequenas, especialmente as que frequentam creches e escolas, podem ter várias infecções respiratórias ao longo do ano. Infecções graves, pneumonias recorrentes, internações, crescimento inadequado e infecções incomuns são sinais que merecem maior atenção.
5. Qual médico investiga imunodeficiência?
O alergista e imunologista é o especialista que pode investigar alterações do sistema imunológico, avaliar o histórico de infecções e solicitar os exames necessários.
6. Quais exames detectam imunodeficiência?
Dependendo da suspeita, podem ser solicitados hemograma, dosagem de imunoglobulinas, avaliação de anticorpos específicos, análise de células do sistema imunológico, testes do sistema complemento e, em determinadas situações, testes genéticos.
7. Imunodeficiência tem cura?
Depende da causa e do tipo de imunodeficiência. Algumas condições podem ser controladas com tratamentos específicos, enquanto outras exigem acompanhamento contínuo.
8. Imunodeficiência pode aparecer em adultos?
Sim. Algumas imunodeficiências podem ser diagnosticadas somente na vida adulta, especialmente quando as manifestações são mais leves ou se tornam mais evidentes ao longo do tempo.
9. Quem tem imunodeficiência pode tomar vacina?
A vacinação pode ser muito importante para pessoas com imunodeficiência, mas algumas vacinas exigem avaliação individual. O calendário deve ser definido de acordo com o tipo de alteração imunológica.
10. Sinusite e otite recorrentes podem indicar imunodeficiência?
Podem ser sinais que justificam investigação em determinadas situações, principalmente quando são muito frequentes, graves, prolongadas ou acompanhadas de outras manifestações. Porém, também existem causas muito mais comuns para esses problemas, como rinite alérgica e alterações anatômicas.
Conclusão
Ter infecções ocasionalmente é esperado. O que merece atenção é um padrão de infecções recorrentes, graves, prolongadas ou de difícil tratamento.
A imunodeficiência é apenas uma das possíveis explicações para esse quadro, e a investigação deve considerar também fatores ambientais, alergias, doenças crônicas, medicamentos e outras condições.
Quando existe suspeita, uma avaliação com alergista e imunologista permite analisar o histórico de forma detalhada e determinar se há necessidade de exames específicos.
Mais do que buscar uma resposta para a chamada “imunidade baixa”, o objetivo é entender por que as infecções estão acontecendo e, quando existe uma alteração imunológica, oferecer o tratamento adequado.
Infecções recorrentes não devem ser ignoradas quando fogem do padrão esperado. Uma investigação individualizada pode ajudar a identificar a causa e orientar medidas para proteger a saúde e melhorar a qualidade de vida.
Dra. Natasha R. Ferraroni ✨
CEO Instituto Ferraroni
Presidente da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI) – DF (2023-2024)